A contaminação por mercúrio e outros produtos químicos utilizados na mineração está a inviabilizar a irrigação e a produção agrícola, afetando os meios de subsistência de famílias e empresas locais. Um número indefinido de pequenos agricultores, bem como micro, pequenas e grandes empresas agrícolas, abandonaram as suas atividades no distrito de Manica, em Moçambique, na província com o mesmo nome, devido à crescente poluição dos principais rios causada pela mineração.
A mineração de ouro, muitas vezes realizada de forma desordenada e ilegal, deixou as águas contaminadas com mercúrio e outros produtos químicos. O ambientalista Augusto Francisco Augusto alertou à DW que a situação pode comprometer a segurança alimentar na região num futuro próximo. “Precisamos de impor regras para reverter a situação que já afeta drasticamente a agricultura, o que pode levar as famílias a ficarem sem alimentos nos próximos anos”, afirmou o ambientalista.
Agricultores em crise porque “a terra está farta deste mercúrio”. A pequena agricultora Fernanda Brito é uma das muitas pessoas afetadas. Ela disse à DW que as dificuldades com a irrigação estão a agravar-se cada vez mais e que este ano não colheu nada. “Estamos a passar por momentos difíceis nesta região. Esta água que usamos não é adequada para a agricultura. Estamos a pedir ao governo que imponha regras aqui. Já não temos nada para produzir. A agricultura é a nossa base de sobrevivência. Sem agricultura não temos vida. Este ano não produzimos nada porque a terra está farta deste mercúrio e de outros produtos químicos usados na mineração”, queixou-se Fernanda.
Segundo Fernanda, não são apenas os agricultores familiares que estão a sofrer; até mesmo grandes investidores podem abandonar o distrito, agravando a crise agrícola local. O ambientalista Augusto Francisco Augusto concorda que a mineração representa um grave problema ambiental e que o governo precisa de agir com firmeza. “A mineração é um grave problema ambiental. Uma das estratégias que o governo deveria usar é fazer cumprir a lei. Impor sanções exemplares a quem a pratica. Não só isso. Devemos também considerar a questão da equipe multissetorial para conscientizar sobre os impactos negativos dessa prática e também sobre a existência de outros tipos de oportunidades”, propõe o ambientalista.
Ele acredita que a mineração não regulamentada deve ser proibida, pois está contaminando cursos d’água e destruindo vastas áreas de produção agrícola. Augusto também destacou os impactos na saúde da população urbana, especialmente nas cidades de Chimoio, Manica e Vila de Gondola, já que alguns rios poluídos alimentam a barragem de Chicamba. “As culturas adquirem uma coloração inadequada e não crescem”, explicou, defendendo o reforço urgente das fiscalizações.
O Administrador do distrito de Manica, Victorino Lundo, afirmou que já estão em curso várias ações rigorosas para conter a poluição. Segundo ele, uma operação recente resultou na remoção de 11 dragas ilegais instaladas por empresas de mineração em rios locais. “Temos a questão da mineração industrial, que, no seu ponto mais alto, é a maior poluidora. Primeiro, a frequente liberação de resíduos de cianeto no rio, que é prejudicial à vida humana e a outros tipos de vida. Devasta a flora e os pequenos microrganismos do rio. Temos tolerância zero para dragas no leito do rio”, disse Lundo. O administrador revelou, no entanto, que muitas dragas operam à noite, permanecendo imóveis durante o dia para escapar da fiscalização, o que torna o controle ainda mais difícil.













































