Há dez anos, um projeto de pesquisa colaborativa acompanhou como os investimentos agrícolas chineses e brasileiros, as parcerias entre Estado e setor privado, a migração informal e a transferência de tecnologia estavam remodelando a agricultura na Etiópia, em Gana, em Moçambique e no Zimbábue. Retomar esse trabalho agora, por meio de uma nova série de reflexões dos pesquisadores originais, revela um cenário que mudou substancialmente, e de forma desigual.
O fio condutor mais evidente é a ascensão contínua da China. Os intercâmbios de tecnologia agrícola, os programas de capacitação e os padrões de migração informal documentados na pesquisa original não apenas continuaram, mas se expandiram para novos territórios. O treinamento agrícola patrocinado pela China cresceu, segundo os pesquisadores Henry Tugendhat e Dawit Alemu, ao passo que novas formas de relação entre Estado e empresas e de parceria comercial surgiram nos anos seguintes, conforme detalhado por Jing Gu e Zhang Chuanhong. Mesmo as próprias relações de pesquisa evoluíram; Xiuli Xu e Tang Lixia, da Universidade de Agricultura da China, descrevem uma mudança na maneira como as parcerias acadêmicas chinesas com instituições africanas operam atualmente.
A trajetória do Brasil revela uma história notavelmente diferente. A pesquisa original captou um momento de otimismo genuíno após o segundo mandato presidencial de Lula, quando a colaboração bilateral e trilateral incluindo a iniciativa ‘More Food International’ parecia ganhar um impulso real. Esse ímpeto não sobreviveu à mudança de liderança política ocorrida após 2019; a gestão Bolsonaro abandonou de vez a maioria dessas iniciativas. As tentativas de retomar a relação durante o terceiro mandato de Lula têm esbarrado em restrições de financiamento e, talvez de forma ainda mais reveladora, em uma mudança de estratégia. Em vez de continuar centrando o foco nas exportações de equipamentos brasileiros, novas parcerias tecnológicas estão sendo estabelecidas crescentemente com a China conforme documentam Lidia Cabral e Arilson Favareto, o que sugere que a estratégia do Brasil para a África está sendo remodelada pela concorrência chinesa, inclusive no âmbito de suas próprias relações bilaterais.
O estudo de caso que serve de maior alerta continua sendo o ProSAVANA, a principal iniciativa de Moçambique para importar a expertise agronômica e empresarial brasileira, partindo da premissa de que latitudes semelhantes implicariam condições agrícolas também semelhantes. Embora o projeto seja amplamente considerado um fracasso em sua concepção original, seu legado persiste; Euclides Gonçalves e Alex Shankland analisam como pequenos projetos remanescentes continuam a moldar os resultados do desenvolvimento ao longo do Corredor de Nacala um lembrete de que grandes projetos fracassados podem deixar um longo rastro institucional.
A análise original de Kojo Amanor e Sergio Chichava, de 2016, descrevia uma era de grande expectativa em torno da cooperação Sul-Sul, com a esperança de que vínculos trilaterais se estendessem a doadores ocidentais, como o Reino Unido e o Japão. Essa perspectiva parece ultrapassada hoje. A China assumiu de forma decisiva o protagonismo nas relações agrícolas com a África, respaldada por um poder econômico que não parou de crescer ao longo da década. O Brasil, apesar de manter suas aspirações, passou a ocupar um papel mais secundário. Enquanto isso, os doadores ocidentais recuaram ainda mais; a redução nos compromissos de ajuda externa agravou a mudança no cenário de quem realmente molda os investimentos agrícolas no continente.
O que não mudou é, possivelmente, mais importante do que o que mudou: as dinâmicas políticas subjacentes e as relações de poder desiguais que moldaram a cooperação Sul-Sul há uma década permanecem firmemente estabelecidas. Tanto para governos africanos quanto para investidores do agronegócio, a lição extraída de uma década de acompanhamento dessas relações é consistente: a cooperação “Sul-Sul” em uma nova era geopolítica definida ainda mais fortemente pela predominância chinesa nunca foi plenamente mútua e continua sendo tão contestada quanto sempre foi.









































