MANICA – Moçambique está a acelerar a sua entrada no mercado global de café de especialidade, com o Ministério da Agricultura, Ambiente e Pescas (MAAP) a anunciar o estabelecimento de 200 hectares de novas plantações nas terras altas da província de Manica. Esta expansão estratégica, uma componente central do Programa de Desenvolvimento Agroindustrial (PRODAI), marca um passo significativo para a transição do país de um produtor de nicho de variedades selvagens para um actor competitivo no comércio internacional de Arábica.
O projeto está a ser implementado através de uma parceria multilateral de alto nível que envolve a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), a Organização das Nações Unidas para o Desenvolvimento Industrial (ONUDI) e o Governo italiano, que está a fornecer o financiamento principal. Ao visar as famílias rurais do centro de Moçambique, a iniciativa procura construir uma base agrícola resiliente que possa resistir à volatilidade climática da região, diversificando ao mesmo tempo um cenário de produção nacional tradicionalmente dominado pelo milho e pelas leguminosas.
Uma vantagem tecnológica crucial para esta expansão advém de um acordo de cooperação Sul-Sul com a Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais (EPAMIG). Os investigadores estão a introduzir cultivares avançadas, especificamente desenvolvidas para tolerância a doenças e alta produtividade em ambientes tropicais de altitude. Estas novas variedades são concebidas para produzir grãos de “qualidade diferenciada”, atendendo à crescente procura global de cafés de especialidade com um preço premium.
“Estou impressionado com o potencial de Manica para a produção de café. As áreas agrícolas, as condições do solo, tanto planas como montanhosas, e as altitudes que variam entre os 600 e os 1.300 metros são muito semelhantes a algumas regiões cafeeiras do Brasil”, observou o Dr. Gladyston Carvalho, investigador principal da EPAMIG, durante uma missão técnica à província. A sua avaliação destaca a adequação ecológica dos distritos de Chimanimani e Sussundenga, que as autoridades acreditam poder servir de pólo regional para a cadeia de valor.
Prevê-se que os efeitos económicos da expansão de 200 hectares sejam substanciais, com foco na geração de rendimentos para os pequenos agricultores que anteriormente não tinham acesso ao mercado do café com elevadas barreiras à entrada. Ao fornecer mudas, equipamento de processamento moderno e formação especializada, a estrutura PRODAI procura eliminar as ineficiências pós-colheita que frequentemente afectam os pequenos agricultores africanos. Este modelo de “centro e periferia” garante que, uma vez colhidos, os grãos são processados de acordo com as normas internacionais, tornando-os prontos para exportação para compradores na Europa e noutros locais.
À medida que Moçambique formaliza a sua presença no sector, tendo recentemente aderido à Organização Internacional do Café (OIC), a expansão de Manica está a ser vista como um teste decisivo para a estratégia agroindustrial mais ampla do país. O objetivo é ir além da “tendência passageira” do café artesanal local para uma indústria sustentável em grande escala que crie empregos a longo prazo e gestão ambiental através de práticas de cultivo à sombra.













































