A indústria de algodão de Moçambique está enfrentando um paradoxo desconcertante: aumento da produção nacional justaposto a uma queda dramática de 61% na receita de exportação durante os primeiros nove meses de 2024. Os números oficiais revelam um forte contraste entre um aumento de 2% na tonelagem de algodão e um declínio significativo nos lucros, deixando as partes interessadas da indústria lutando com as implicações.
De acordo com um relatório do Banco de Moçambique, as exportações de algodão de janeiro a setembro totalizaram meros US$ 11,9 milhões (€ 11,1 milhões), uma queda acentuada em relação aos US$ 30,3 milhões (€ 28,3 milhões) registrados no mesmo período do ano passado. Essa queda, o relatório atribui, principalmente a uma redução de 8% nos preços globais da fibra de algodão.
Apesar desse revés financeiro, a produção nacional de algodão na verdade teve um aumento modesto, atingindo 24.000 toneladas. No entanto, esse número ficou aquém da ambiciosa meta do governo de 40.000 toneladas, atingindo apenas 60% da produção projetada.
A discrepância entre a produção e a receita de exportação destaca a vulnerabilidade do setor de algodão de Moçambique às flutuações do mercado global. Enquanto a área cultivada se expandiu para 96.523 hectares, ante 95.097 hectares, os retornos diminuíram, colocando pressão sobre os agricultores e a economia em geral.
Francisco Ferreira dos Santos, presidente da Associação Moçambicana do Algodão (AAM), enfatizou a importância histórica do algodão, observando sua contribuição de US$ 30 a US$ 50 milhões (€ 28 a € 46,7 milhões) anualmente em exportações na última década. Ele descreveu o algodão como uma “cultura quase sagrada, com efeitos catalíticos na economia e na demografia”.
Para mitigar o impacto da queda dos preços, o governo moçambicano introduziu um subsídio de cinco meticais (US$ 0,7) por quilo, visando estabilizar os preços e apoiar aproximadamente 600.000 agricultores. Esta intervenção buscou promover uma “cultura de confiança” e garantir os meios de subsistência daqueles que dependem da indústria do algodão.
No entanto, os desafios persistem. Fatores como chuvas irregulares devido ao fenômeno climático “El Niño”, a instabilidade contínua em Cabo Delgado, uma importante região produtora de algodão, e um excesso de oferta no mercado global contribuíram para o declínio do preço.
“Há pressão global de países onde há subsídios, o que está reduzindo o preço do algodão. Algodão demais está sendo produzido e os estoques estão aumentando”, explicou o ex-ministro da Agricultura e Desenvolvimento Rural, Celso Correia.
Moçambique, responsável por menos de 0,5% da produção global de algodão, encontra-se à mercê de um mercado dominado por gigantes como os Estados Unidos, China e Índia. A necessidade de intervenções estratégicas e diversificação para proteger o setor de mercados globais voláteis está se tornando cada vez mais aparente.













































